Relatório Anual Socioeconômico da Mulher – RASEAM (Ministério das Mulheres/Observatório Brasil da Igualdade de Gênero, 2026)

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O Relatório Anual Socioeconômico da Mulher (RASEAM 2026) é um documento oficial do Ministério das Mulheres que apresenta um diagnóstico detalhado das condições de vida feminina no Brasil.

Confira os principais destaques:

Estrutura demográfica e diversidade

  • As mulheres representam 51,2% da população brasileira (108,5 milhões) e possuem uma esperança de vida ao nascer de 79,9 anos, significativamente superior à dos homens (73,3 anos).
  • Existem no Brasil 5,5 milhões de domicílios com filhos de até 14 anos sem cônjuge, sendo que a imensa maioria (90,2%) é chefiada por mulheres, o que representa quase 5 milhões de mães solo.
  • Entre as mães solo, 68,6% são pretas ou pardas. Além disso, mulheres negras compõem 72,4% da população feminina em favelas e comunidades urbanas, evidenciando o recorte racial da pobreza no país.
  • Em 2022, cerca de 26 mil meninas entre 10 e 14 anos já viviam em união conjugal no Brasil, representando a imensa maioria (76,5%) das crianças nessa situação.
  • 68,6% dos domicílios com responsabilidade feminina têm acesso simultâneo a rede de água, esgoto e coleta de lixo, contra 65,8% dos domicílios chefiados por homens.

Autonomia econômica e mercado de trabalho

  • A participação feminina na força de trabalho (53,5%) continua muito inferior à masculina (72,8%). Quando participam, enfrentam maior desocupação: 8,1% contra 5,5% dos homens.
  • Persiste a disparidade de rendimentos; as mulheres recebem, em média, 78,8% da remuneração dos homens (uma diferença de 21,2%). No recorte regional, a maior desigualdade está no Sul e a menor no Centro-Oeste.
  • As mulheres são 94% da força de trabalho doméstica, setor marcado por baixa remuneração (média de R$ 1.231, menos da metade da média geral das mulheres) e alta informalidade (75,9% sem carteira assinada).
  • Domicílios chefiados por mulheres são mais vulneráveis; 59,9% dos 18,9 milhões de lares em insegurança alimentar no Brasil têm uma mulher como responsável.

Educação e cuidado

  • As mulheres possuem maior taxa de frequência líquida no ensino superior (31,4%) do que os homens (22,9%).
  • A falta de vagas em creches é um entrave central para a autonomia econômica. O nível de ocupação de mães com todos os filhos na creche é de 68,0%, caindo para 36,5% quando apenas alguns filhos frequentam.
  • A pobreza menstrual afeta a permanência escolar: 20% das jovens de 14 a 24 anos já faltaram à escola por falta de absorventes, número que sobe para 24% entre jovens pretas de baixa renda.

Saúde e direitos sexuais reprodutivos

  • A razão nacional de mortalidade materna no Brasil foi de 59,7 óbitos por 100 mil nascidos vivos em 2024, mas as desigualdades raciais seguem profundas: entre mulheres indígenas, a taxa chega a 134,9, e entre mulheres pretas, 84,3, muito acima da registrada entre mulheres brancas (54,4). As causas obstétricas diretas, em grande parte evitáveis, respondem por 70,1% dessas mortes.
  • Embora em queda, o país ainda registrou quase 12 mil partos de meninas de até 14 anos em 2024, casos que, pela legislação brasileira, decorrem de estupro de vulnerável. O cenário expõe a persistência da violência sexual e seus impactos sobre a infância e a adolescência.
  • O câncer de mama permanece como o tipo de câncer mais incidente entre mulheres no Brasil, com estimativa de 73 mil novos casos anuais no triênio 2023-2025. Em 2024, foram registrados 20.842 óbitos pela doença, com taxas mais elevadas nas regiões Sul e Sudeste. No mesmo ano, 4,3 milhões de mamografias foram realizadas, mas a cobertura entre mulheres de 50 a 69 anos segue abaixo da meta nacional.
  • O câncer de colo do útero é o terceiro mais frequente entre brasileiras, com estimativa de 17 mil novos casos anuais. Em 2024, foram registradas 7.473 mortes pela doença, com maior concentração na região Norte. A cobertura vacinal contra o HPV alcançou 62,4% entre crianças e adolescentes de 9 a 14 anos, ainda distante da meta de 90% estabelecida pela Organização Mundial da Saúde.
  • Também cresce a preocupação com a saúde mental das mulheres: as notificações de transtornos mentais relacionados ao trabalho passaram de 57,9% em 2014 para 71,9% em 2024 do total de casos registrados, evidenciando o impacto das desigualdades, da sobrecarga e das violências cotidianas sobre a saúde psíquica feminina.

Enfrentamento à violência

  • Em 2024, o Brasil registrou 292.821 notificações de violência interpessoal contra mulheres, evidenciando a persistência e a gravidade do problema em todo o país. Entre as mulheres adultas, 60,8% das vítimas são pretas e pardas, e mais de 40% das notificações se concentram na região Sudeste.
  • A residência continua sendo o local mais perigoso para as mulheres, concentrando 70,7% das notificações de violência contra adultas. A violência de repetição também chama atenção: 43,2% dos casos registrados indicam agressões recorrentes, mostrando a permanência de ciclos de violência. Em 75,3% das notificações, o agressor é do sexo masculino.
  • A violência se manifesta de formas diferentes ao longo da vida: entre meninas de até 14 anos, a violência sexual representa 44,6% dos registros; na adolescência, predominam as violências física (48,4%) e psicológica (23,6%), embora a sexual permaneça elevada (29,1%). Na vida adulta, concentram-se 165.430 registros, com predominância da violência física (67,7%) e psicológica (33,6%). Entre idosas, 86,2% das ocorrências acontecem no ambiente doméstico, com destaque também para negligência e abandono.
  • Em 2025, o país registrou 71.652 casos de estupro contra mulheres, sendo 69,7% classificados como estupro de vulnerável, atingindo principalmente meninas menores de 14 anos. No mesmo ano, foram contabilizados 1.548 feminicídios consumados e 3.821 tentativas, evidenciando um cenário de risco constante e escalada da violência letal.
  • A violência autoprovocada também cresce de forma alarmante: entre 2014 e 2024, as notificações de tentativas de suicídio entre mulheres aumentaram quase 800%. Em 2024, 3.695 mulheres morreram por suicídio no Brasil, com maior incidência na região Sul e entre mulheres de 30 a 39 anos.
  • Em 2024, 28.864 meninas e mulheres foram registradas como desaparecidas no país, reforçando a dimensão estrutural da violência de gênero e suas múltiplas formas de manifestação.
  • Na rede de proteção, o Brasil conta com 2.617 serviços especializados de atendimento. Em 2025, o Ligue 180 registrou 679,1 mil relatos de violência, sendo a violência psicológica a mais recorrente (41,6%). O país possui 549 Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher (DEAMs), mas apenas 39 funcionam 24 horas por dia.
  • No sistema penitenciário, a superlotação feminina chegou a 101,9%. A maioria das mulheres presas é negra (66,2%) e quase metade está encarcerada por crimes relacionados a drogas (48,3%). A precariedade das unidades também impacta a maternidade: apenas 48% das prisões possuem espaços adequados para gestantes.

Espaços de poder e decisão

  • Apesar de serem a maioria do eleitorado, as mulheres ocupam apenas 17,3% da Câmara dos Deputados e 18,5% do Senado. No Poder Executivo estadual, a presença é ainda menor, com apenas 7,4% de governadoras (2 de 27).
  • No governo federal, as mulheres ocupam 28% dos ministérios e a participação em cargos de alto escalão (DAS 6) é de apenas 26,5%.
  • Houve um avanço municipal, com 1.306 municípios possuindo órgãos específicos para políticas voltadas às mulheres em 2025.

Cultura, esporte e comunicação

  • As mulheres têm leve vantagem no acesso à internet (90,6% na área urbana), mas o acesso cai drasticamente no meio rural (48,1%).
  • No programa Bolsa Atleta, as mulheres representam entre 44% e 48% das beneficiárias, com menor presença em modalidades paralímpicas e esportes de força.

Sobre o relatório

O RASEAM 2026 (Relatório Anual Socioeconômico da Mulher) chega à sua 9ª edição consolidado como um dos principais instrumentos de Estado para a promoção da igualdade de gênero no Brasil. Elaborado pelo Observatório Brasil da Igualdade de Gênero, do Ministério das Mulheres, o documento reúne mais de 350 indicadores extraídos de diversas bases de dados oficiais — como IBGE, Ipea, Inep, Fiocruz e diversos ministérios — para evidenciar as desigualdades estruturais que atravessam a vida das brasileiras . O relatório oferece um panorama multidimensional essencial para o desenho de políticas públicas, abrangendo temas como estrutura demográfica, autonomia econômica, educação, saúde, enfrentamento à violência, espaços de poder e decisão, além de cultura, esporte e comunicação.

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