Livres para Sonhar?: Percepções da comunidade escolar sobre violência contra meninas (Serenas/Plano CDE, 2025)

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99% dos profissionais da educação acreditam que a escola deve prevenir a violência baseada no gênero de alguma forma.

Professores relatam que o desrespeito é frequente no ambiente escolar, afetando principalmente estudantes e docentes: 31% dizem que ocorre quase diariamente e 16%, semanalmente, também alcançando funcionários.

Xingamentos, agressões físicas e situações de discriminação são frequentes entre estudantes, incluindo ofensas racistas, humilhações por condição socioeconômica e violências de gênero, como insultos homofóbicos e a sexualização e agressões verbais direcionadas a meninas.

77% dos professores concordam totalmente que compartilhar ou divulgar imagens íntimas de meninas configura um caso de violência baseada em gênero (VBG).

76% associam comentários sexuais sobre o corpo de alunas à violência de gênero.

71% reconhecem que afirmar que certas profissões “não são para meninas”, assim como a ideia de que o futebol seria um esporte exclusivamente masculino, reflete discriminação de gênero.

 

Professoras mulheres tendem a identificar mais situações como VBG em comparação com os professores homens:

“Meninos falam do seu corpo, peito, bunda. Falam na cara, é muito constrangedor. Na cabeça deles é brincadeira, mas é violento.”
(Estudante, 2º EM, menina, região centro-oeste)

“Quando começam a falar de relações sexuais de forma nojenta (…) coisas que eles querem fazer e que já fizeram, se sentem reis quando falam qualquer coisa: ‘nossa fiquei com ela’ (…) o jeito que eles falam é nojento, dá nojo só de imaginar, dá ânsia, é desconfortável.”
(Estudante, 9º ano, menina, região sudeste)

“A menina que vem de decote, tentam acertar bolacha no peito dela, passar a mão nela.”
(Estudante, 3º EM, menina, região sudeste)

Docentes relatam racismo e controle sobre os corpos de meninas como situações recorrentes na escola: 52% já presenciaram tratamento desigual contra meninas negras, 68% comentários constrangedores sobre aparência e 70% a sexualização de alunas.

A violência contra meninas aparece tanto na escola quanto no ambiente digital: 76% dos docentes relatam casos de bullying, 47% apontam ataques e exposições online e 21% mencionam situações de violência sexual.

Relatos indicam altos níveis de objetificação e exposição de meninas, inclusive em grupos digitais que incentivam a sexualização e o compartilhamento de imagens íntima:; 43% dos docentes afirmam já ter presenciado a divulgação desse tipo de conteúdo entre alunos.


Rivalidades entre alunas também refletem a internalização de estereótipos e violências de gênero:

“Uma não gosta de outra só de olhar.”
(Estudante, 1º E.M., menina, região centro-oeste)

“Sempre por causa de homem, uma pegou o namorado da outra.”
(Estudante, 1º E.M., menina, região sudeste)

Parte dos docentes reconhece que professores também praticam violência de gênero: 51% já presenciaram comentários machistas ou constrangedores sobre o corpo e a aparência de meninas, sendo 17% com frequência mensal ou maior.

Meninos tendem a culpabilizar meninas pelo assédio e a naturalizar condutas machistas e predatórias: 7 em cada 10 docentes já presenciaram sexualização ou cantadas indesejadas, e 42% relataram toques sem consentimento.

A VBG afeta a aprendizagem, a saúde e a permanência das meninas na escola, e 86% dos docentes reconhecem seus impactos negativos em sua trajetória educacional.

71% dos docentes já observaram impactos negativos da violência baseada em gênero na vida das estudantes. Entre eles, estão:

Conflitos verbais, inclusive relacionados a gênero e homofobia, são majoritariamente resolvidos em sala de aula, sem encaminhamentos formais.


Situações mais graves de VBG são, em geral, encaminhadas à gestão escolar, como agressões físicas, assédio, exposição de imagens íntimas e ataques homofóbicos.

As principais ações de prevenção à VBG nas escolas são palestras (51%) e rodas de conversa (56%), enquanto iniciativas de formação e capacitação de docentes são menos frequentes, com palestras ou seminários (33%), materiais educativos (23%), cursos opcionais (22%) e obrigatórios (10%).


Os temas mais abordados nas escolas focam na prevenção ao bullying (82%) e na promoção da cultura de paz (61%), enquanto temas específicos como violência de gênero (35%), equidade de gênero (21%) e prevenção à LGBTfobia (20%) recebem menor atenção.


Gestores e professores relatam falta de preparo e apoio para lidar com a VBG, e 29% afirmam se sentir pouco ou nada preparados para abordar o tema com os estudantes.

Sobre a pesquisa

A pesquisa “Livres para Sonhar?: Percepções da comunidade escolar sobre violência contra meninas” foi lançada, em 2025, pela ONG Serenas, em parceria com a Plano CDE e apoio da Nova Escola e financiamento do Instituto Machado Meyer e do Instituto Beja. O estudo buscou mapear percepções, crenças e atitudes de professores, estudantes, gestores escolares e lideranças das redes de educação sobre a violência baseada em gênero (VGB) no contexto educacional. Para isso, foram realizadas conversas em profundidade e grupos de discussão com a comunidade escolar, além da aplicação de um questionário com professores, combinando escuta direta das experiências com o levantamento de dados mais amplos.

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