Pela vida das mulheres: O papel da arma de fogo na violência de gênero/5ªedição (Instituto Sou da Paz, 2026)
- Instituição/Órgão
- Instituto Sou da Paz
- Âmbito
- nacional
- Ano
- 2026
VIOLÊNCIA ARMADA LETAL
Apesar da queda geral dos homicídios no Brasil, a violência letal contra mulheres segue preocupante:
Em 2024, mais de 3,6 mil mulheres foram vítimas de homicídio, quase metade por arma de fogo, que permanece como principal meio de agressão.
A redução desses casos tem sido menor e irregular (5% entre 2020 e 2024), mantendo uma média anual de 3,8 mil mortes. O cenário também revela forte impacto sobre mulheres negras e desigualdades regionais persistentes.

Em 2024, os feminicídios representaram 40% dos homicídios de mulheres no Brasil. A maioria foi cometida com arma branca (48%) e arma de fogo (23%), e os casos vêm crescendo nos últimos anos, tanto em números absolutos quanto na taxa por população.

A maioria dos homicídios de mulheres ocorre no ambiente doméstico. Em 2024, cerca de 35% aconteceram em casa e 29% em vias públicas — proporção que chega a 45% em residências quando desconsiderados casos sem informação.
Crimes com arma de fogo são mais frequentes na rua, enquanto os cometidos por outros meios ocorrem principalmente dentro de casa.

Em 2024, a maioria dos feminicídios ocorreu dentro de casa (64%), enquanto 21% aconteceram em vias públicas, evidenciando que esses crimes são, em geral, cometidos por pessoas próximas às vítimas.

A maioria das mulheres vítimas de homicídio no Brasil é negra, representando 68% dos casos — proporção que sobe para 72% na violência com armas de fogo. Nos feminicídios, o perfil se mantém semelhante, com 63% das vítimas sendo mulheres negras.

Há diferenças importantes na violência contra mulheres conforme raça e contexto. Entre mulheres brancas, os homicídios ocorrem mais em casa, enquanto entre mulheres negras há maior equilíbrio entre residência e via pública — com maior exposição à violência armada nas ruas. Já entre mulheres indígenas, embora os números sejam menores, o cenário é grave, com maior concentração na região Norte e predominância de mortes por outros meios.

Os homicídios de mulheres se concentram principalmente na vida jovem e adulta, com cerca de 68% dos casos entre 18 e 44 anos. Nos feminicídios, esse padrão se repete, chegando a 71% nessa faixa etária, com destaque para mulheres mais jovens — especialmente nos casos com arma de fogo — e um novo aumento entre mulheres idosas.

A violência letal contra mulheres no Brasil varia entre regiões. Entre 2020 e 2024, houve queda de 7% nos homicídios femininos, puxada pela redução da violência com armas de fogo. Já os homicídios por outros meios se mantiveram estáveis, com destaque para o aumento de 20% na região Sul.
VIOLÊNCIA ARMADA NÃO LETAL
Em 2024, foram registradas 327,7 mil notificações de violência contra mulheres. Após uma queda em 2020, devido à pandemia, os registros voltaram a crescer de forma contínua.
- As notificações incluem diferentes formas de violência (física, psicológica e sexual), sendo a violência física com uso de força corporal a mais comum.
- Em cerca de 4,4 mil casos houve uso de arma de fogo, com perfil semelhante ao das vítimas de homicídio: maioria de mulheres negras (66%).
- Após queda até 2020, os casos de violência armada não letal voltaram a crescer, retomando níveis próximos ao pico de 2017.


Para as mulheres, a casa é um local de alto risco de sofrer violência armada:
- A violência armada não letal ocorre, em grande parte, na residência (45%), seguida pela via pública (31%).

A violência armada afeta todo o ciclo de vida das mulheres, especialmente a partir da juventude:
- Entre as adolescentes e jovens, principalmente na faixa etária de 15 a 19 anos, a rua se destaca como principal local da agressão armada.
A arma de fogo é usada para infligir diversos tipos de violência às mulheres:
- Grande parte dos eventos de violência psicológica, financeira e tortura envolvendo armas de fogo ocorreram dentro de casa.
- Eventos de violência física e sexual envolvendo armas de fogo distribuem-se entre ambiente doméstico, via pública e outros, mas, ainda assim, a casa desponta como local onde mais de 40% dessas violências ocorreram.

A violência armada ocorre em um contexto de repetição que caracteriza a violência doméstica/familiar e contra a mulher:
- Das notificações que envolvem uso de arma de fogo, 35% indicam violência de repetição, ou seja, a vítima já havia sofrido outros episódios de agressão atendidos pela saúde.

Fatores de risco associados ao álcool e a arma de fogo:
- Em 26% das notificações por violência armada há suspeita de consumo de álcool por parte do agressor, sendo que em 43% das notificações essa informação é ignorada.
- Já nos casos em que a mulher sofre a violência armada dentro de casa, essa proporção sobre para 35%.
A comparação entre violências letais e não letais mostra que a arma de fogo é o meio mais letal contra mulheres, pois reduz drasticamente as chances de sobrevivência e socorro. Estudos indicam que seu uso aumenta em cerca de 85% a probabilidade de morte em casos de feminicídio, tornando a violência muito mais grave em relação a outros meios.

Sobre a pesquisa
A 5ª edição do relatório Pela vida das mulheres: O papel da arma de fogo na violência de gênero, elaborado pelo Instituto Sou da Paz, apresenta um panorama da violência letal e não letal contra as mulheres, com foco no uso de armas de fogo. Com base em dados da saúde e da segurança pública, o estudo mostra que a violência segue presente e desigual — com crescimento dos feminicídios e maior impacto sobre mulheres negras. A análise também destaca diferenças regionais, os meios de agressão e como o uso de armas aumenta a letalidade.