Informe Técnico Temático: filhas e filhos de vítimas de feminicídio no Brasil (LESFEM/UEL, 2026)

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Feminicídio afeta ao menos 4.500  filhos e dependentes no Brasil entre 2023 e março de 2026

Entre 2023 e março de 2026, o Brasil registrou 21.033 vítimas de feminicídio consumado ou tentado. Desse total, os registros disponíveis permitem identificar diretamente 4.507 filhas, filhos e dependentes menores de 18 anos ou dependentes das vítimas.

O número representa um mínimo diretamente identificável nas fontes analisadas pelo Monitor de Feminicídios no Brasil (MFB). A partir de parâmetros observados na própria base, a estimativa de magnitude chega a aproximadamente 25 mil filhas, filhos e dependentes afetados no período.

Os principais números:

  • 21.033 mulheres foram vítimas de feminicídio consumado ou tentado;
  • 6.903 casos foram de feminicídio consumado (32,8%);
  • 14.130 foram de feminicídio tentado (67,2%);
  • 4.507 filhas, filhos e dependentes foram identificados diretamente nos registros;
  • 2.553 ocorrências aconteceram na presença de filhas ou filhos;
  • 311 vítimas estavam gestantes.

Filhas, filhos e dependentes também são afetados

Nos casos de feminicídio consumado, foram identificados 2.849 filhas, filhos e dependentes das vítimas. Nos casos tentados, esse número foi de 1.658.

Entre os feminicídios consumados:

  • 1.097 ocorrências aconteceram na presença de filhas ou filhos;
  • 1.560 vítimas foram identificadas com filhas, filhos ou dependentes;
  • 2.849 filhas, filhos e dependentes foram identificados;
  • 147 vítimas estavam gestantes.

Entre os feminicídios tentados:

  • 1.456 ocorrências aconteceram na presença de filhas ou filhos;
  • 1.103 vítimas foram identificadas com filhas, filhos ou dependentes;
  • 1.658 filhas, filhos e dependentes foram identificados;
  • 164 vítimas estavam gestantes.

Os dados mostram que os impactos do feminicídio não se encerram na mulher diretamente vitimada. Nos casos consumados, a morte da mãe pode provocar mudanças abruptas nos vínculos familiares, no cuidado e nas condições de vida de crianças e adolescentes. Nos casos tentados, a sobrevivência da vítima não significa necessariamente o fim da violência: podem permanecer lesões, traumas, dificuldades econômicas e situações de controle e coerção por meio da parentalidade.

Um mínimo verificável diante de uma realidade maior

Os 4.507 filhos, filhas e dependentes identificados representam o piso factual encontrado nos registros analisados. A estimativa de aproximadamente 25 mil pessoas afetadas considera a proporção observada na base: cerca de 70% das vítimas tinham filhos e cada uma tinha, em média, 1,7 dependente.

A diferença entre o número diretamente identificado e a estimativa evidencia também uma lacuna na produção de dados públicos. Segundo o estudo, os sistemas de segurança pública, saúde e justiça não possuem, de forma integrada, campos suficientes para registrar informações sobre filhos e dependentes das vítimas.

Assim, a ausência dessas informações não representa apenas uma questão estatística. Quando os dados não são registrados, torna-se mais difícil identificar quem precisa de proteção, acompanhamento e políticas públicas específicas.

Os impactos ao longo da vida

Os efeitos do feminicídio sobre filhas, filhos e dependentes podem aparecer em diferentes dimensões e se combinar ao longo do tempo.

No nível individual, podem surgir medo, ansiedade, depressão, luto traumático, alterações no sono e na alimentação, dificuldades de concentração e mudanças na percepção sobre o futuro. Esses efeitos variam conforme a idade, a exposição anterior à violência, o testemunho do crime, os vínculos de cuidado e o acesso à informação e à proteção.

No âmbito familiar e relacional, o feminicídio consumado pode significar a perda da mãe e, em alguns casos, o afastamento do autor do crime, produzindo uma ruptura nos vínculos familiares. Também podem ocorrer separação entre irmãos e disputas entre familiares. Nos casos tentados, a mãe pode permanecer necessitando de cuidados e proteção, enquanto o autor pode tentar manter acesso, poder ou controle por meio dos filhos. Filhas mais velhas também podem assumir precocemente responsabilidades de cuidado dos irmãos, situação conhecida como adultificação.

No nível comunitário e institucional, escola, serviços de saúde, assistência social, Conselho Tutelar, polícia e Justiça podem atuar como redes de proteção, mas também podem produzir novas violações quando não estão preparados para responder à complexidade desses casos. Mudanças de moradia podem romper redes de amizade e apoio, enquanto processos judiciais fragmentados podem exigir que crianças e adolescentes repitam suas histórias ou não considerem adequadamente a violência em decisões relacionadas à guarda e à convivência familiar.

No nível social e estrutural, fatores como renda, raça, território, deficiência, migração e acesso a serviços influenciam a capacidade de reconstrução da vida após a violência. A transferência do cuidado para outras mulheres da família também pode reproduzir desigualdades de gênero. Além disso, a falta de registros nacionais integrados dificulta a busca ativa, o acompanhamento e o planejamento de políticas públicas.

O tempo também importa

As necessidades de filhas, filhos e dependentes não terminam nos primeiros dias após o feminicídio. Elas podem mudar conforme o tempo passa.

Nas primeiras 72 horas, são prioritárias a segurança, a localização dos dependentes, a definição de um cuidador seguro, os cuidados de saúde e a proteção das informações. A resposta mínima deve envolver um protocolo intersetorial, um profissional de referência e medidas para impedir o contato indevido com o autor.

Nos primeiros 90 dias, ganham importância questões como moradia, renda, guarda, matrícula escolar, documentação e cuidados físicos e psicossociais. Nesse período, a resposta deve incluir um plano individual e familiar, busca ativa e acesso simplificado a benefícios e à Justiça.

Ao longo do primeiro ano, tornam-se centrais a estabilização dos vínculos, o processo de luto, a continuidade escolar e a resolução de pendências. O acompanhamento periódico, o apoio aos cuidadores e a revisão das medidas de proteção são fundamentais.

Ao longo do curso de vida, novas necessidades podem surgir em momentos de transição, na construção da identidade, na elaboração da memória e na busca por autonomia. Por isso, o acompanhamento não deve ter um prazo rígido para terminar: é necessário garantir uma porta de retorno aos serviços, cuidado longitudinal e participação das próprias crianças e adolescentes nas decisões que dizem respeito às suas vidas.

Feminicídio é uma violência que ultrapassa a vítima direta

Os dados mostram que contabilizar apenas as mulheres diretamente atingidas pelo feminicídio é insuficiente para dimensionar os efeitos dessa violência. Filhas, filhos e dependentes também precisam ser reconhecidos como pessoas afetadas e como sujeitos de direitos, com necessidades específicas de proteção, cuidado, assistência e acompanhamento.

Garantir essa resposta depende também de melhorar a produção e a integração dos dados públicos. Sem informações sobre quem são essas crianças e adolescentes, onde estão e quais necessidades apresentam, parte dos efeitos do feminicídio permanece invisível para as políticas públicas.

Sobre a pesquisa

O “Informe Técnico Temático: filhas e filhos de vítimas de feminicídio no Brasil” foi realizado pelo Laboratório de Estudos de Feminicídios (LESFEM), em parceria com a Universidade Estadual de Londrina (UEL). O estudo busca dimensionar os impactos dos feminicídios consumados e tentados sobre filhas, filhos e dependentes das vítimas, reconhecendo que essas pessoas também são diretamente afetadas pela violência. A análise tem como base os registros do Monitor de Feminicídios no Brasil (MFB) entre janeiro de 2023 e março de 2026. O documento apresenta o número de filhas, filhos e dependentes identificados nos registros e estima a dimensão desse impacto, diferenciando os filhos e dependentes de mulheres assassinadas daqueles de mulheres que sobreviveram a tentativas de feminicídio.

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