Criança Não é Mãe: percepção e opinião da população sobre violência sexual e aborto legal (Criança Não é Mãe e Ipsos-Ipec, 2026)
- Instituição/Órgão
- Instituto Ipsos / Ipec (Inteligência em Pesquisa e Consultoria)
- Âmbito
- nacional
- Ano
- 2026
Violência sexual
A população brasileira acredita que a maioria das vítimas de estupro no Brasil são adolescentes de 14 a 17 anos:
- Meninas menores de 14 anos: 35%
- Adolescentes de 14 a 17 anos: 37%
- Mulheres adultas de 18 a 59 anos: 18%
- Não sabe: 10%
Quando se trata de raça/cor, a maioria afirma que as principais vítimas são meninas e mulheres negras:
- Negras (pretas e pardas): 45%
- Brancas: 23%
- Indígenas: 1%
- Amarelas: 2%
- Não sabe: 30%

67% das pessoas entrevistadas apontam que os estupros de vulneráveis acontecem dentro de casa, no ambiente familiar. Essa percepção aumenta conforme a idade das pessoas respondentes, chegando a 76% entre aquelas com 60 anos ou mais.
- Total: 67%
- Masculino: 61%
- Feminino: 72%
- 16 a 24 anos: 58%
- 25 a 34 anos: 67%
- 35 a 44 anos: 68%
- 45 a 59 anos: 68%
- 60 anos ou mais: 76%
Na percepção da população, 31% dos agressores de meninas costumam ser pessoas próximas e conhecidas da vítima, como um amigo da família, vizinho ou conhecido; 23% são familiares, como pai ou padrasto; e 21% são outros parentes.

Atualmente, o Brasil conta com um conjunto importante de políticas públicas de assistência para meninas vítimas de estupro. A maioria das pessoas entrevistadas concorda que meninas e adolescentes que sofreram violência sexual têm o direito de acessar serviços de assistência e proteção.
Percentual da população que concorda totalmente que:
- O poder público deve fornecer acompanhamento psicológico imediato para meninas vítimas de estupro (79%).
- Toda criança ou adolescente vítima de estupro que buscar uma delegacia ou serviço de saúde deve ser informada sobre as medidas disponíveis para evitar infecções sexualmente transmissíveis e gravidez indesejada (72%).
- Toda cidade deveria ter serviços públicos de saúde para atender meninas e mulheres que sofreram estupro e precisam realizar um aborto de forma legal e segura pelo SUS (64%).
- Prefeituras e governos devem ampliar a divulgação sobre os direitos de crianças e adolescentes grávidas, incluindo o direito de interromper a gestação nos casos permitidos por lei (57%).

Gravidez na infância e na adolescência
39% da população não sabe estimar quantas meninas se tornam mães no Brasil:
- Menos de 1.000: 11%
- Entre 1.001 e 5.000: 25%
- Entre 5.001 e 10.000: 14%
- Mais de 10.000: 10%
- Não sabe: 39%
49% da população acredita que as meninas que engravidaram em consequência de um estupro são, em sua maioria, negras. Entre as pessoas que se declaram pretas ou pardas, essa proporção chega a 57%.
- Negras (pretas e pardas): 49%
- Brancas: 17%
- Indígenas: 1%
- Amarelas: 1%
- Não sabe: 32%

Essa realidade contrasta com os dados do Observatório Criança Não é Mãe (2026), que aponta que, entre 2019 e 2023, foram registrados 82.604 casos de meninas que engravidaram no Brasil, o que corresponde a uma média de 16.520 casos por ano.
Quando se trata de opiniões sobre casamento, gravidez e aborto na infância, as pessoas entrevistadas discordam totalmente ou em parte das seguintes afirmações:
- O casamento antes dos 14 anos é uma realidade da cultura brasileira e não há nada a ser feito a esse respeito (71%).
- Meninos são naturalmente violentos e meninas são naturalmente dóceis, por isso os estupros fazem parte da nossa cultura (65%).
- Uma criança de 11 anos sofre um estupro, engravida e afirma que deseja abortar. O Conselho Tutelar encaminha o caso para a Justiça. A juíza tenta convencer a criança a manter a gravidez e, depois do nascimento, dar o bebê em adoção (56%).
- Na escola da sua afilhada, as aulas de educação sexual estão proibidas porque, para eles, esses temas devem ser tratados pela família (55%).
62% da população concorda totalmente que a gravidez na infância e na adolescência traz riscos físicos e emocionais para a menina grávida, pois seu corpo e seu psicológico não estão totalmente preparados para passar pelas transformações da gravidez, enfrentar um parto ou exercer a maternidade.

Em relação à maternidade infantil, a maioria das pessoas concorda que uma menina com menos de 14 anos não tem condições de ser mãe e, portanto, não deve ser punida por abortar:

Consequências mais associadas à gravidez de meninas, na percepção da sociedade brasileira:
- Riscos à saúde física e mental da menina: 61%
- Interrupção dos estudos e dificuldade de retornar à escola: 52%
- Estigmatização, julgamento, discriminação e isolamento social: 40%
- Dependência econômica da família ou de terceiros: 25%
- Não sabe: 10%
Diante da situação hipotética de uma familiar de 13 anos que engravidou após manter relação sexual com um adulto, 43% consideram que a gestação deve ser interrompida legalmente para que a menina possa continuar os estudos.
Aborto permitido por lei
Um terço das pessoas entrevistadas conhece alguém que já fez um aborto, mas essa proporção é um pouco maior entre as mulheres (37%):

Para as pessoas entrevistadas, o aborto é visto como uma questão de:
- Saúde pública: 50%
- Legislação e Justiça: 19%
- Intimidade privada de cada pessoa: 13%
- Polícia: 3%
- Igreja e/ou religião: 3%
- Não sabe: 13%
No que diz respeito aos possíveis efeitos da descriminalização do aborto, a população concorda totalmente ou em parte que ela contribui para:
- O aumento da quantidade de abortos no Brasil: 47%
- A redução da mortalidade materna: 47%
- A redução da quantidade de meninas mães no Brasil: 45%
- A redução da quantidade de abortos realizados todos os anos no Brasil: 38%

A maior parte da sociedade concorda totalmente com a aplicação da lei que permite o aborto em casos de anencefalia, risco de vida da gestante e estupro de vulnerável:

Considerando meninas menores de 14 anos vítimas de estupro, a maioria dos internautas é favorável a que elas:
- Recebam assistência médica imediata para tratar os machucados e lesões decorrentes do estupro (90%).
- Recebam assistência e acompanhamento psicológico (89%).
- Recebam rapidamente, ao procurar um serviço de saúde, medicamentos para prevenir infecções sexualmente transmissíveis, como sífilis e HIV (88%).
- Recebam rapidamente, ao procurar um serviço de saúde, a pílula do dia seguinte para evitar uma gravidez (77%).
- Caso fiquem grávidas, possam escolher se desejam ou não interromper a gravidez de forma legal e segura em um hospital público (64%).

Campanha Criança Não é Mãe
A Campanha Criança Não é Mãe foi criada para promover os direitos de crianças e adolescentes e incidir no debate público sobre violência sexual e gravidez na infância. Entretanto, 58% das pessoas entrevistadas não conhecem a iniciativa, enquanto 42% já ouviram falar dela.
Entre as pessoas participantes da pesquisa, a iniciativa é amplamente percebida como relevante para a sociedade brasileira. Ao todo, 75% a consideram importante: 61% a classificam como muito importante e 14% como um pouco importante.

Sobre a pesquisa
A pesquisa “Criança Não é Mãe: percepção e opinião da população sobre violência sexual e aborto legal” foi realizada pela Ipsos-Ipec, a pedido do Instituto Patrícia Galvão, em parceria com a campanha Criança Não é Mãe. O estudo, realizado em março de 2026, buscou entender o que a população brasileira pensa sobre violência sexual, gravidez na infância e adolescência, casamento infantil e aborto previsto em lei. Para isso, foram ouvidas 1.200 pessoas com 16 anos ou mais, de todas as regiões do país e das classes ABCDE. As entrevistas foram feitas online, por meio de um questionário com perguntas fechadas. Os resultados têm 95% de nível de confiança e margem de erro de 3 pontos percentuais para mais ou para menos.